Fundo ELAS de Investimento Social: Mulheres Fortalecendo Mulheres

Essa é uma das maneiras de descrever o Fundo Elas de Investimento Social (Fundo Elas): mulheres que buscam o avanço dos direitos das mulheres.

Quando o Fundo começou, ainda na virada do século, o investimento social nos direitos das mulheres no Brasil era raro e pouco discutido – os primeiros eventos a abordar o tema, sob a égide da diversidade, foram realizados em 2002, em parceria com o GIFE. Após 12 anos de conscientização do Fundo Elas, além de apoio a 256 grupos e organizações de mulheres no país, a importância de investir no empoderamento de mulheres felizmente já aparece nas discussões e práticas empresariais. O Fundo Elas nasceu do movimento de direitos das mulheres justamente para assegurar recursos a mulheres e o desenvolvimento de seu protagonismo. Em face da condição vulnerável da mulher no Brasil, arcando com cada vez mais trabalho, e da saída da cooperação internacional do país, os recursos existentes estavam longe de ser suficientes. Disso surge a atuação do Fundo: captar recursos para doá-los a iniciativas e organizações que fortaleçam mulheres.

Desde sua fundação, o Fundo Elas apoia organizações e grupos de mulheres na informalidade, investindo tanto em saúde (prevenção de doenças) quanto em autonomia financeira (geração de renda). As beneficiárias são mulheres que fazem muito com poucos recursos. Com os projetos, muitas se conscientizam de seus direitos e passam a lutar por eles; outras consolidam o propósito que já tinham. Algumas acabam se tornando empreendedoras, já com um plano de negócios e uma meta de alcançar sua independência econômica.

Outra frente de atuação deste fundo de mulheres envolve organizações feministas, com 20 ou 30 anos de experiência e maior sofisticação de trabalho. Essas instituições estão sendo capacitadas para melhorar a comunicação da causa ao público em geral, enfrentando falta de informação e preconceito. O objetivo é que as pessoas – especialmente as mulheres – conheçam a causa feminista, compreendam que o trabalho passado do movimento proporciona os direitos do presente e se tornem doadoras.

Os projetos apoiados pelo Fundo Elas têm objetivos de transformação social e inovação. A transformação pode ocorrer tanto na ampliação de políticas públicas destinadas a mulheres (ou seu controle social) quanto em seus relacionamentos na comunidade e na recuperação de sua autoestima. A inovação pode corresponder ao envolvimento de novos atores ou parceiros em uma iniciativa, ou ao uso de novas abordagens ou papéis. Por exemplo, um grupo carioca de mulheres palhaças – papel usualmente desempenhado por homens – usa a comédia para conscientizar pessoas sobre a Lei Maria da Penha, que, a partir de 2006, fez avançar substancialmente a proteção legal das mulheres contra a violência doméstica e a discriminação.

O Fundo Elas seleciona suas donatárias por meio de concursos, realizados uma ou mais vezes por ano, cada um com uma abordagem diferente. Em 2011, por exemplo, o foco foi o desenvolvimento institucional de organizações de jovens e mulheres negras do Nordeste. Em 2012, o tema era a comunicação como ferramenta estratégica de sustentabilidade e fortalecimento do movimento feminista, além de ações de gestão e mobilização de recursos. Em 2013, houve três concursos: um voltado a sindicatos de trabalhadoras domésticas, outro envolvendo HIV/Aids e o terceiro, em parceria com o Instituto Avon e a ONU Mulheres, destinado a combater violência doméstica, incidindo especialmente sobre as suas origens.

A avaliação do mérito de cada projeto é feita às cegas, para evitar favorecimentos (esta metodologia foi inclusive observada por outros fundos independentes que desejavam aprendê-la). Adicionalmente, todo financiamento é acompanhado por capacitações, conforme a necessidade das beneficiárias: direitos das mulheres, plano de negócios, estudos de viabilidade, resolução de conflitos, comunicação e gestão financeira, entre outras.

Na captação de recursos, o Fundo Elas sempre teve um forte relacionamento com organizações financiadoras da cooperação internacional: seus financiamentos iniciais vieram do Global Fund for Women e da Fundação Ford, que estão envolvidos com a organização até hoje. Por alguns dos anos seguintes, também contribuíram Ashoka, Levi Strauss Foundation, Mama Cash e Hivos. Mais recentemente, estão presentes Fundação Kellogg, Oak Foundation, Sigrid Rausing Trust e ONU Mulheres. Além disso, o Fundo tem recebido contribuições de doadores individuais e começou a se aproximar de empresas – já fez parcerias com a MAC e a Avon e também presta serviços e troca conhecimento com a Chevron. A partir de 2014, o Fundo também espera obter recursos da Inter American Foundation, da União Europeia, da Gerdau e do Ministério da Cultura.

Em alguns casos, são as organizações que procuram o Fundo Elas, buscando seu conhecimento e experiência. A Fundação Ford, por exemplo, quando decidiu fechar seu programa de direitos sexuais e reprodutivos no Brasil, pediu para o Fundo assumir o legado dessa área.

A Fundação Kellogg também envolveu o Fundo Elas em sua estratégia de saída do país (que ocorrerá até 2016) e desenvolveu um relacionamento muito além do financiamento. O legado que a Fundação deixará no país é o fortalecimento do setor de financiamento independente, especialmente com a criação de outro fundo brasileiro, também nascido da sociedade civil: o Fundo Baobá para equidade racial. Como estratégia paralela, são apoiados outros fundos, entre os quais o de mulheres – cuja coordenadora executiva é conselheira do Baobá. Graças a esse vínculo, o Fundo Elas conecta o tema de gênero ao de raça, traz sua experiência de manter um fundo independente para redução de inequidades e, com a liderança que exerce no setor, mobiliza outros fundos independentes para participarem da Rede Independente de Fundos e Fundações Comunitárias (também financiada pela Fundação Kellogg). O apoio específico ao fundo de mulheres foi destinado a diversos projetos envolvendo gênero e raça no Nordeste brasileiro, e a Fundação tem realizado abordagens similares nas demais regiões latino-americanas em que atua – novamente solicitando o conhecimento do Fundo Elas.

As metas do Fundo Elas são ambiciosas: nos próximos dez anos, pretende-se conseguir um fundo patrimonial (endowment) de pelo menos US$ 10 milhões, e idealmente de US$ 70 milhões. Outras metas incluem ter sede própria e contratar mais pessoal, inclusive para criar uma área de avaliação e sistematização. Para a causa feminista, o cenário futuro de atuação do Fundo envolve não apenas apoio a políticas públicas dirigidas a mulheres e ao controle social das políticas, mas também apoio financeiro e técnico a organizações (inclusive para que sejam autossustentáveis).

Além disso, o Fundo Elas apoia (e continuará a apoiar) redes de movimentos feministas e de fundos independentes, especialmente a Rede Independente de Fundos e Fundações Comunitárias. O fortalecimento de cada fundo ou fundação acaba beneficiando os demais: pouco a pouco, estão mudando a cultura de doações do país. A coordenadora executiva do Fundo, Amália E. Fischer P., enxerga qualidade na atual filantropia brasileira, mas alerta que é preciso acompanhar as transformações sociais do país, sob risco de permanecer na lógica da caridade. “A filantropia será de transformação e justiça social quando compreender a importância de investir nos direitos dos outros, na diversidade”, afirma.

Seja captando, doando ou capacitando (ou indiretamente ampliando políticas públicas e conscientizando empresas), o Fundo Elas busca sempre contribuir para o avanço dos direitos das mulheres no Brasil. É difícil imaginar que a causa teria alcançado os mesmos avanços sem sua atuação.

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